Slice 1 Created with Sketch Beta. Slice 1 Created with Sketch Beta. Slice 1 Created with Sketch Beta. Slice 1 Created with Sketch Beta. Slice 1 Created with Sketch Beta. Slice 1 Created with Sketch Beta. Slice 1 Created with Sketch Beta. Slice 1 Created with Sketch Beta. Slice 1 Created with Sketch Beta. Slice 1 Created with Sketch Beta. Rectangle 212 + Rectangle 212 + Rectangle 212 Created with Sketch. Slice 1 Created with Sketch Beta. > Slice 1 Created with Sketch Beta. > Slice 1 Created with Sketch Beta. > Slice 1 Created with Sketch Beta. > Slice 1 Created with Sketch Beta. Slice 1 Created with Sketch Beta. Slice 1 Created with Sketch Beta. Slice 1 Created with Sketch Beta. Slice 1 Created with Sketch Beta. Twitter Created with Sketch Beta. Slice 1 Created with Sketch Beta. Slice 1 Created with Sketch Beta.

PLANEJAR EXIGE OLHAR PARA O FUTURO E TAMBÉM PARA O PASSADO / 22 Jan 2015

Planejar exige olhar para o futuro e também para o passado

Por Lúcia Coraça, Sérgio Guimarães e Martin Fuchs(*)

As “medidas operativas” adotadas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que acarretaram em um apagão programado na tarde do último dia 19/01 em parte de dez estados brasileiros nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, além do Distrito Federal, não devem ser consideradas surpresa para ninguém e podem voltar a se repetir se mantidos o atual ritmo de consumo e baixo nível pluviométrico.

O setor de geração elétrica vem passando por vários sobressaltos, há pelo menos dois anos, quando o regime de chuvas começou a cair, mantendo abaixo da média a captação de água que abastece os reservatórios das hidrelétricas. Tal situação trouxe de volta o fantasma do racionamento, como o que sofremos no início da década passada. Pesquisa do Ibope, realizada a pedido da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel), mostrou que três em cada quatro brasileiros temiam racionamento de energia ainda em 2014, que somente não se configurou devido ao baixo desempenho econômico do País e, para alguns, em função das eleições majoritárias.

O governo demorou em admitir a situação desconfortável, mas já em abril do ano passado pressupôs algum risco no setor elétrico. Em audiência pública na Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados, o presidente da Empresa de Planejamento Energético (EPE), Maurício Tolmasquim, afirmou que o Brasil passa pelo pior evento climático da história se forem consideradas, em conjunto, as regiões Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste.

Em torno de 70% da energia elétrica brasileira são provenientes de fonte hidráulica, considerada limpa, barata, confiável e com um potencial ainda longe de ser esgotado. No entanto, as usinas hidrelétricas são baseadas em reservatórios; quanto maior a capacidade de reservação de água no período chuvoso, mais água haverá no período de seca para gerar energia elétrica a custos mais baixos, sem a necessidade de complementação pelo sistema termelétrico - baseado em combustíveis fósseis, mais caros, poluentes e menos disponíveis.

Reservar mais exige a inundação de áreas maiores e as novas usinas a serem construídas deverão estar localizadas, em sua grande maioria, na Amazônia, onde o relevo não permite a construção de reservatórios sem o alagamento de áreas extensas. Além disso, a partir de meados da década de 1990, com o intuito de preservação florestal, manutenção das localidades ribeirinhas e proteção de terras indígenas, não mais se conceberam usinas com reservatórios em grandes projetos hidrelétricos.

Para contornar pressões sociais que nem sempre são lúcidas ou tecnicamente justificáveis, essa tendência contra os reservatórios abre mão de parcela do aproveitamento do potencial energético de geração, tornando esses aproveitamentos muito pouco interessantes, seja do ponto de vista de escala de geração ou da relação entre custo e benefício econômico.

Além disso, tais projetos em geral não levaram em consideração os aspectos das mudanças climáticas, suas tendências e impactos na utilização dos recursos hídricos. Consequentemente, os reservatórios existentes e suas vazões são geridos de forma precária, consequencial, não preventiva, e os novos projetos são rechaçados por também seguirem o mesmo modelo deficiente de concepção, prejudicando, em última instância, a tomada de decisão e o apoio da população na implantação de projetos hidrelétricos importantes para o País.

Planejar é desenvolver projetos que olhem para o futuro e que estejam baseados em soluções técnicas sustentáveis sob os aspectos social, econômico e ambiental.

Com esse olhar, existem alguns exemplos de iniciativas de outros governos que planejam seus projetos hídricos estrategicamente, considerando modelos climáticos baseados em dados históricos, bem como em projeções de condições climáticas, permitindo a análise de cenários futuros para otimização da utilização desses recursos, potencializando os benefícios dessa prática.

Como exemplo, destacamos a porção superior do rio Danúbio, na Europa Central, amplamente utilizada para a geração de energia hidrelétrica e para navegação. Foi desenvolvido um estudo para modelagem da precipitação pluviométrica e de vazão da bacia do alto Danúbio, cobrindo uma área de influência de 100 mil km², considerando 200 anos de informações históricas e condições futuras de escoamento para 30 cenários climáticos até o ano 2100. Verificou-se também que, já no século 21, são esperadas mudanças no escoamento do rio, e puderam ser quantificados os impactos que isso acarretará.

O planejamento antecipado das ações tornou possível controlar a vazão do rio de modo a operar satisfatoriamente as usinas lá instaladas e proporcionar navegabilidade, abastecimento de água e geração elétrica sustentáveis, além do impacto econômico para os países servidos pelo rio, possibilitando ações para mitigação desses impactos. Estamos vivendo exatamente esses impactos no interior de São Paulo, mas como meros espectadores.

Outro exemplo é o da bacia do Rio Zambeze, quarta maior bacia hidrográfica na África e que é compartilhada por oito países. Um sistema de apoio à decisão “online” (SAD) foi desenvolvido para permitir a avaliação de cenários das mudanças climáticas e impactos nos recursos hídricos. Essas simulações mostraram que os projetos de irrigação em grande escala, na forma como eram propostos, causariam efeitos significativos em Moçambique e foram replanejados para evitar esses potenciais impactos.

Temos também as várias pequenas centrais hidrelétricas construídas ao norte de Portugal, mas que não atingiram as expectativas de geração durante os primeiros anos de operação. Para verificar o motivo dessa ineficiência, foram consideradas as variações de vazão na bacia hidrográfica ocorridas nos últimos 70 anos, e constatou-se que a alteração do nível do Atlântico Norte, devido às mudanças climáticas, tinha um papel fundamental. Tal análise demandou ajustes na operação dessas usinas para maximização da geração de energia hidrelétrica.

A compreensão dos benefícios da adoção de práticas de planejamento e análise de cenários nos médio e longo prazos nos faz refletir por que o mercado brasileiro ainda não leva em consideração as mudanças climáticas e seus impactos sobre os recursos hídricos. De que modo eles podem afetar, por exemplo, o projeto de transposição do rio São Francisco ou a situação do rio Paraíba, em São Paulo.

As projeções do clima, combinadas aos dados de modelos climáticos e hidrológicos, oferecem suporte técnico para tomada de decisão em investimentos, planejamento estratégico e projeto de novos empreendimentos, além de melhorias operacionais em empreendimentos existentes. A análise das variações naturais passadas do clima ajuda as empresas a considerarem os riscos do seu projeto, e a compreensão das tendências futuras de disponibilidade de água permite o desenvolvimento sustentável de projetos de recursos hídricos.

(*) Lúcia Coraça é diretora de Energia da Pöyry para a América Latina,  Sérgio Guimarães é vice-presidente sênior da Pöyry e Martin Fuchs é business manager de energia da Pöyry na Áustria.

Informação de contato

Martin Fuchs
Head of Hydro Consulting